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Os Salteadores do Canguru Perdido

por Paulo Pinto, em 18.01.14

Aproveito a maré para retomar este blog, que tem andado subnutrido. E a maré é a recente informação, divulgada pela imprensa internacional (por exemplo, aqui, aqui ou aqui), sobre o manuscrito português que alegadamente contém uma figura de um canguru. Conclusão: é uma (presumida) prova da chegada dos portugueses à Austrália antes do "descobrimento" oficial, por um navio holandês em 1606. Como é comum neste tipo de informações, o que não passa de uma curiosidade assume foros de descoberta extraordinária, capaz inclusivamente de "reescrever a história", como os jornais se apressam a reproduzir. Para tal, nada melhor do que pegar nas afirmações da responsável (ou porta-voz) da galeria de arte norte-americana que adquiriu o manuscrito. Ninguém parece interessado em perceber que a instituição tem todo o interesse em publicitar a "descoberta", nem que para isso tenha que alinhavar umas declarações especulativas e sensacionalistas, como afirmar que "Portugal was extremely secretive about her trade routes during this period, explaining why their presence there wasn't widely known" ou que o presumido canguru prova "that the artist of this manuscript had either been in Australia, or even more interestingly, that travellers' reports and drawings of the interesting animals found in this new world were already available in Portugal". Para compor o ramalhete, lá vem o inevitável testemunho de Peter Trickett, autor de uma (mais do que contestada e de duvidosa credibilidade) obra onde defende a chegada dos portugueses ao continente australiano na década de 1520: “It is not surprising at all that an image of a kangaroo would have turned up in Portugal at some point in the latter part of the 16th century, it could be that someone in the Portuguese expedition had this manuscript in their possession". A imprensa portuguesa, claro, vai atrás. O Correio da Manhã, sempre na vanguarda informativa, e sob o curioso título "Ilustração de freira 'descobre' Austrália", faz eco de tudo isto. Curiosamente (ou não), faz interessantes acrescentos da sua lavra, dizendo que "O secretismo e o terramoto de 1755 explicam porque não há registos oficiais nos arquivos portugueses" e que "Portugal tinha, desde 1512, um entreposto comercial em Timor". Começo já aqui: 1. o (alegado) "secretismo" não fazia nenhum sentido nas águas do Sueste Asiático (que fervilhava de navios chineses, malaios, guzerates, japoneses, javaneses), e chegar lá não era segredo nenhum (já franceses o haviam feito na década de 1520, e ingleses na de 1570, e holandeses na de 1590). 2. o terramoto não é para aqui chamado; muita documentação desapareceu, mas duvido que alguma vez tivesse havido "registo oficial" da chegada portuguesa à Austrália. 3. Os portugueses chegaram a Timor em 1515 ou 1516 e não tiveram nenhum "entreposto comercial" por lá durante muito tempo, simplesmente iam carregar sândalo, como chineses e javaneses.

Falar sobre a possível chegada dos portugueses à Austrália no século XVI é assunto muito batido, que não interessa aqui esmiuçar (ou repetir). Apenas é bom relembrar o essencial (não sou eu que o digo, são os autores que estudaram a fundo esta temática e têm sobre ela trabalho produzido e publicado): é possível, talvez provável, que portugueses tenham posto os pés em terras australianas antes dos holandeses. Mas como se tratou de mercadores, de "Fernões Mendes Pintos", de gente que navegava nas redondezas (uma vez mais, a carregar sândalo em Timor) e que viajava geralmente em navios asiáticos (e de asiáticos), por conta própria ou ao serviço do capitão de Malaca, não deixaram registo. A Austrália era uma terra sem interesse, onde não havia cravo, sândalo, noz-moscada, pimenta... nem porcelana chinesa ou algodão indiano. Ficava fora das rotas de comércio asiáticas, nem chineses, nem japoneses, nem malaios se interessavam. Logo, os portugueses também não. Logo, a ter havido tuga ou tugas a desembarcar por lá, não se tratou de uma armada saída de Lisboa, de Goa, de Malaca, com um capitão mandatado pelo rei para "descobrir" a Austrália. Isso nunca existiu. Na viagem de Colombo, por exemplo, sim. Aqui, não. As teses de Trickett (e de McIntyre antes dele, por exemplo) agarram-se a este modelo e a uma alegada viagem de Cristóvão de Mendonça que nunca foi feita. Ponto final. Que há, então? ecos, vestígios ténues, suspeitas; a cartografia da "Escola de Dieppe" é um indício; as obras de Manuel Godinho de Erédia são outro. E pouco mais. Até ver. Fala-se da procura das "ilhas de outro", mas os portugueses procuravam "ilhas de ouro" em muitos sítios (nomeadamente em Samatra), havia lendas malaias idênticas, nada de verdadeiramente novo ou que nos leve à Austrália.

E o canguru? Bom, o canguru pode ser tudo menos um canguru. Trocando por miúdos: ver um canguru numa iluminura de uma obra religiosa das Caldas é um belo exercício de imaginação. Suponhamos um cenário no qual eu (e muitos antes de mim, certamente) franzeria o sobrolho: a mesma imagem numa cópia de um relato de viagens, numa nova versão de uma crónica sobre os portugueses na Ásia, num manuscrito comprovadamente de alguém que tivesse estado na Índia, em Malaca, num escrito de um tratado de geografia sobre a Ásia. Assim, num livro de orações de autoria desconhecida, pertença de uma freira das Caldas, lamento, mas é pouco. Não chega, sequer, para levar a sério. A conservadora da galeria de arte americana bem pode dizer que é um canguru perfeitinho, o Peter Trickett pode afirmar o que quiser, mas o assunto nunca passará (até ver, repito), de uma curiosidade. Aliás, comento: o canguru não era um animal particularmente bizarro para ser reproduzido com tamanho cuidado. Uma girafa, por exemplo, sim. E quem conhece a iconografia da época e vê os resultados dos desenhos feitos a partir de descrições de terceiros (por exemplo, a forma como Filippo Pigafetta desenhou uma zebra, a partir das descrições de Duarte Lopes), sabe que saía debuxado uma criatura bem diferente da verdadeira.

Entretanto, fiz umas declarações à Lusa sobre o assunto, que começam a sair na imprensa. É muito curiosa a forma como as nossas palavras saem "cá pra fora": eis que a SIC Notícias diz que "Historiador diz que portugueses conheciam Austrália antes dos holandeses". Ainda vou ter que fazer uma conferência de imprensa a fazer desmentidos, querem lá ver?

 

adenda: prestar declarações por telefone (ainda que sobre uma mera curiosidade como é este caso) é tramado; gostava de saber onde é que eu alguma vez disse que aquela região (o Sueste Asiático) era "um imenso mar português" e que a possível (ou provável) presença portuguesa na Austrália foi "ad hominem". Faço muitas figuras, eu sei, mas destas, não.

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publicado às 19:08


10 comentários

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De Marco Neves a 19.01.2014 às 14:42

Uma coisa é dizer umas larachas sobre portugueses e cangurus, outra coisa é perceber do que se fala, como neste post.
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De JS a 19.01.2014 às 23:52

A facilidade com que afirma que os Portugueses "nunca" tiveram nenhuma expedição para descobrir a Austrália é caricata visto passar a texto todo a criticar a debilidade das provas que argumentam no sentido oposto. É Verdade que é já hoje aceite por larga maioria dos historiadores que foram provavelmente os Portugueses os primeiros Europeus a chegar à Austrália...nem que tenha sido por sorte.
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De Paulo Pinto a 20.01.2014 às 00:26

Não sei se percebi bem onde quer chegar e o sentido do seu comentário. Os meus "nuncas" são sempre "até prova em contrário", como qualquer historiador sabe. De resto, onde discordo da premissa de que os primeiros europeus a colocarem o pé na Austrália eram, muito possivelmente, portugueses? e que esta forte possibilidade não tem nada a ver com uma imaginária "expedição" destinada a esse fim?
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De sivispacem a 20.01.2014 às 00:44

Parece-me estar em presença de um "complexado caliban"...(isso do "tuga"...) A "capitular"pintada pela freira é um "fait divers"...Um putativo historiador estar a comentar "peanuts" dos "correiosdamanhã"nacionais e estrangeiros é revelador.Uma coisa é combater a visão eurocêntrica de "descobrir"outras civilizações "que já lá estavam"...Isso já foi substituido por "encontro de culturas"...Outra coisa muito distinta é dizer que os portugueses não só estiveram nas costas da Austrália ("avant la lêttre")antes de TODOS os europeus,como fizeram a cartografia da costa,onde,tal como nas "Ante-Ilhas",semearam nomes portugueses por cabos e enseadas...Mas,como Armando Cortesão explicou,"descobrir",NA ÉPOCA,era outra coisa: Tomar posse,MARCAR,revelar...E isso,salvo erro,foi o que fez,séculos mais tarde,Cook,o CORSÁRIO de Sua Majestade britânica...O que NÃO ESTÁ EM CAUSA!...
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De Paulo Pinto a 20.01.2014 às 07:42

Gostei muito do "putativo historiador". Diga-me lá o nome de um que não seja "putativo", que depois comparamos CVs, sim? (pode ser o seu, por exemplo). Mas rendo-me mesmo é ao shakespereano "complexado Caliban" (presumo que com maiúscula). Posto isto, e cagadelas-de-posta-de-pescada à parte (que é o que vejo nas linhas que escreveu), não tem nada de útil a comentar?
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De Cixi a 23.01.2014 às 00:20

Não sei se 'caliban' revelará erudição shakespeareana. Provavelmente refere-se ao Caliban da série Huntik que passa no canal Panda.
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De E. Vidinha a 21.01.2014 às 20:02

Primeiro, é anedótica a definição de "descoberta" que envolve autorização de expedição ao sítio "a descobrir".
Assim Cabral foi "achador" e não "descobridor" do Brasil.
Mas Duarte Pacheco Pereira afirma que foi descobrir com autorização de D. Manuel em 1498.
Colombo só tinha autorização de descobrir outras terras, que não aquelas.
Em que ficamos, senhor, confuso?

Segundo, como já foi dito, interessa que essas noções sejam ensinadas devidamente às pessoas, sob pena de ser apenas retransmissor de perversão e ocultação educacional.
"Descobrir" é uma palavra com significado corrente, e não uma definição que se ajusta aos poderes submersos na história.

Terceiro, é óbvio que de Timor à Austrália é um pulo, mas não de canguru. Pensar que os portugueses se estabeleciam sem enviar expedições à vizinhança, é não perceber nada de estratégia defensiva elementar. Todas as ilhas em redor estavam assinaladas, excepto a parte sul que tinha a maior, a Austrália. Porquê?

Quarto, há ainda provas de cartografia. Directas e indirectas.
Uma está escarrapachada no Museu da Marinha.
Pegou-se num Mapa de D. Sebastião, e diz-se que foi feito em 1970:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2014/01/cangurus-e-cas-dos-gurus.html
Tem lá os seus cangurus.

Continuação de sucesso profissional e mediático.
Cumprimentos aos manos,
Vidinha
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De Paulo Pinto a 21.01.2014 às 21:35

Hesitei antes de comentar, mas como sei no que estas coisas dão, ou seja, o silêncio permite que o disparate se espalhe (haverá quem leia, e depois siga os links, e diga "uau!", e acabe até por achar que sim, se calhar...), venho dizer assim umas coisas avulsas. Espero que sirvam para alguma coisa. A primeira é que não entendo as referências à diferença que "achar" e "descobrir" tinha na época (pensará que me deu uma novidade?). A segunda é que não entendi inicialmente o tom sarcástico do comentário, mas ao reconhecer o blog para onde remete (presumo que seja o autor, anónimo, claro está) percebi tudo, é aquele repositório de desvarios e delírios sobre estas temáticas, com conspirações e ocultações à mistura. A "perversão e ocultação educacional", a referência aos "poderes submersos na história" não enganam.
"Estratégia defensiva elementar"? Ali, em Timor? Contra quem? Macassares e ternates, talvez, sim, com certeza, mas esses vinham de outras bandas, não de sul. E lá vem a inevitável referência ao "mapa de D. Sebastião" e as "provas de cartografia" (ou seja, um remissivo para o tal blog). Corro o risco de estar a publicitar disparates, mas irrita-me a forma como passam por "hipóteses" (quando não "teses"). Portanto, aqui vão umas quantas coisinhas: 1. onde está a sustentação de que o "mapa do Museu da Marinha" é baseado numa carta de 1570? onde? ahhh o autor viu que tinha uma bandeira em Manila, pronto, é 1570. Elementar. Ou não sabia que as Filipinas foram espanholas até aos finais do século XIX ou "isso agora não interessa nada", como dizia a Teresa Guilherme. 2. onde está a prova de que D. Manuel I "usava o epíteto imperial de César"? Só porque Duarte Pacheco Pereira o tratava assim? é pouco. 3. a referência a 1514 como data da chegada dos portugueses a Timor é errada. Erro de quem? de McIntyre (um precursor de Peter Trickett e das teorias do "descobrimento português da Austrália", da tese Cristóvão de Mendonça, etc), que cita. Se lesse a fonte saberia que a carta é dirigida a Afonso de Albuquerque e não ao rei, e que Rui de Brito diz (em 1514) que não mandou ninguém a Timor "por não ter junco", e que contava fazê-lo no ano seguinte. Mas a primeira referência segura aponta para 1516. 4. Interrogar-se sobre a razão porque não há vestígios hindus ou islâmicos na Austrália é mais do que ridículo, é não perceber nada de história do Sueste Asiático (há-de dizer-me onde estão eles na Nova Guiné, por exemplo), dizer que é porque os ingleses os apagaram é delírio de teoria da conspiração. 5. Por fim, ligar o livrinho "do canguru" às Caldas> Rainha D. Leonor > D. João II > Descobrimentos, é verdadeiramente descobrir a pólvora. Mais haveria, mas muito sinceramente, tenho mais o que fazer do que perder tempo a ler disparates. Cumprimentos, Paulo Pinto.
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De E. Vidinha a 21.01.2014 às 22:28

Queria coibir-me do adjectivar à Lagardére, como você faz...
Mas, continuamos no grau zero:
- Não pode usar informação posterior - constatar que não tem inimigos a Sul, na Austrália, antes de explorar o Sul, o que implicava dar de caras com ela.

Porém, tem toda a razão, não adianta discutir cores com cegos.
Ainda mais com os que optaram por essa cegueira.

O blog indicado tem de facto muita especulação, tal como aqui se vêm outros desvarios pessoais interpretativos e nada mais.
Ficamos no "Gosto disto" (talvez prefira em termos de TV).

Quanto ao resto, já que tentou um simulacro de resposta...
Vejamos, o que conseguiu? - Passar Timor de 1514 a 1516, e com uma justificação que nem lembrava ao menino Jesus.
E daí? Nada.
O mapa do Museu da Marinha tem outras referências que apontam para a data única de 1570.
Você só viu o que quis. Tinha lá os links:
http://alvor-silves.blogspot.pt/2013/05/prova.html
http://alvor-silves.blogspot.pt/2011/03/mapas-de-dieppe-2.html
(este último mostra como a junção dos mapas de Dieppe dá a Austrália oriental)

Tem outros mapas, noutro blogs:
http://tdias.files.wordpress.com/2007/03/2085t.jpg
Mas, não vou adjectivar blogs, isso faça-o você, que parece ser muito bom em adjectivos, mas pobre em substantivos.

De resto, não lhe estava a tentar dizer nada que não saiba, mas já agora, é bom que se veja que há mais quem saiba.

Cumprimentos pessoais.
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De LUIS DE MACEDO a 10.05.2014 às 03:18

o autor estragou tudo ao dizer que nao houve nenhuma ordem para irem descobrir a australia...ai ja prova que fala sem sentido nem ordem...explico porquê.... nunca ninguem pode mandar descobrir, as descobertas sao sempre por acaso...se algo se sabia que poderia existir é pq alguem contou, logo é pq alguem ja teria passado por lá antes...ex:os portugueses nao descobriram o Brasil, os portugueses edificaram o Brasil, sem os portugueses o Brasil nao existiria, nasce da colonização...o que realmente os portugueses descobriram foi terras da america do sul que posteriormente designaram de Brasil, mas antes deram outros noves como, cabrali, terra de vera cruz ou terras santa cruz...o Brasil foi preciso ser construido pelos portugueses..falando em descoberta, lembremos que os portugueses descobriram o caminho maritimo para a india pq ja sabiam tal como todo o mundo ocidental que existia a india, protanto ha uma procura de algo que se sabe que existe, só nao se conhece o caminho por mar, e ai os portugueses foram os pioneiros...colombo que ate parece ter sido um portugues é que descobriu a america por acaso pensando estar na india...dai indios aos povos americanos...logo descoberta é ocasional, mas procurar descobrir é algo totalmente diferente, é esforço, vontade, luta, curiosidade, trabalho...o resto é acaso, sorte...por isso que o feito de Vasco da gama é que foi a grande descoberta pro mundo devido a intençao de se ir buscar as especiarias...entao o autor que nao julgue que alguem tem que ir mandar descobrir..se se descobre o que nao se imagina existir, é acaso, nao poderia ter sido por ordem, ninguem pode procurar o que nao sabe se existe..haja paciencia...se os portugueses estiveram primeiro na australia poderia ter sido por acaso, mas tbm poderia ter sido por influencia de fontes que fizessem acreditar numa existencia que mesmo sabendo ngm valorizou...e ai acredito que os portugueses la estivessem estado primeiro, mas nao deram importancia, nem sabiam da sua dimensao...mas acho que ja outros orientais ja deveriam saber e tbm nao ligaram ao facto...mas o que fica, é que parece que os portugueses estiveram la primeiro que afinal outros europeus que se julga e a historia nos contam...é isso!!

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