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Muito aquém de Capricórnio

por Paulo Pinto, em 09.04.14

O tema do descobrimento da Austrália pelos portugueses renasce ocasionalmente na imprensa, ora pela descoberta de um canhão numa praia ora pela de um desenho de um alegado canguru num manuscrito seiscentista. Embora, do ponto de vista científico, se trate de uma questão menor - há muito que a historiografia se desinteressou por pormenores tão marcadamente eurocêntricos como "quem descobriu a terra X" - suscita natural interesse junto do público. Afinal, não vivemos hoje em plena nostalgia dos tempos - reais ou imaginários - em que as viagens portuguesas causavam assombro e Portugal era respeitado e invejado por toda a Europa? Como escapar ao fascínio da hipótese de terem sido também os portugueses os "primeiros" a chegar à Austrália?

Esta ideia tem um paladino: o jornalista australiano Peter Trickett e o seu Beyond Capricorn (em português, Para além de Capricórnio), de 2007. A sua "tese" - que não é nova, antes reformula ideias anteriores - resume-se rapidamente: na década de 1520, Cristóvão de Mendonça foi secretamente incumbido pelo rei para atingir a lendária "ilha do ouro" mencionada por Marco Polo. A sua armada partiu de Lisboa e acabou por reconhecer e cartografar o continente australiano. Os seus mapas perderam-se, mas hoje restam cópias de origem francesa, que formam o chamado Atlas Vallard. Trickett reconstitui a viagem de Mendonça e o seu périplo. É uma bela e apaixonante odisseia; pena ser pouco mais do que ficção. Deficiente domínio do português, desconhecimento da produção científica sobre a expansão portuguesa e a Ásia marítima, abordagem limitada e preconceituosa das fontes históricas, erros grosseiros de interpretação, são algumas das mazelas de que padece o seu trabalho.

Quem queira saber mais sobre o tema constatará que não falta informação, na internet e na imprensa (replicada em blogues e redes sociais), sobre as ideias de Trickett e suas variantes, tomadas como inovadoras, heterodoxas, desafiadoras das velhas tradições, ousadas, estimulantes. O autor esteve em Portugal, deu entrevistas e toda a imprensa reproduziu acriticamente a sua "tese", com maior ou menor entusiasmo. Um autor australiano a defender os brios do patriotismo português não é coisa que surja todos os dias, é um facto. Em 2009, como corolário, Trickett foi agraciado com a Comenda da Ordem do Mérito.

Já a crítica ao seu trabalho (quer à "tese" propriamente dita quer ao livro) é uma raridade. Não conheço qualquer recensão crítica à obra. A comunidade científica não reagiu? Sim, logo em 2008, o Museu da Ciência da Univ. de Coimbra realizou um colóquio e uma mesa-redonda com historiadores de reconhecida credibilidade: a obra de Trickett aponta algumas pistas de trabalho interessantes, mas a sua "tese" carece de fundamentação. Não é a hipótese de os portugueses terem, muito provavelmente, visitado a costa australiana antes de holandeses e britânicos que está errada; é, tão-somente, a novela Cristóvão de Mendonça. As atas deste encontro foram publicadas recentemente (Portugueses na Austrália: as Primeiras Viagens), mas a divulgação foi praticamente nula, em flagrante contraste com a ampla difusão de Para além de Capricórnio, cujas ficções continuam a fazer escola e a polir o ego nacional. Alguns poderão entender esta bizarria como uma prova do provincianismo português; para mim, é sobretudo um sintoma do enraizado divórcio entre público e academia, leigos e especialistas, divulgação e ciência, que persiste em Portugal.

(publicado anteontem no DN)

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publicado às 22:52




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