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Faz-de-conta "de la Mar"

por Paulo Pinto, em 18.04.14

Façamos um exercício de imaginação. Há séculos, no auge da sua pujança económica, a cidade de Guimarães foi tomada por uma armada asiática. O Condado Portucalense soçobrou perante o poderio dos aguerridos malaios, feitos novos senhores dos mares ocidentais, que por cá andaram durante várias décadas. Os malaios, todavia, foram apenas os primeiros; depois deles vieram turcos e chineses que disputaram entre si, durante séculos, o domínio sobre a Península Ibérica. Portugal e Espanha são formações políticas recentes, o resultado da descolonização ocorrida há pouco mais de meio século. Não existe português nem castelhano, mas sim uma língua ibérica comum, oficial em ambos os países, afora línguas e dialetos locais. Por cá, chama-se "lingua de Portugal"; ali, "lingua de España".

O navio do capitão malaio que inaugurou a "era colonial" asiática, carregado com o espólio do saque de Guimarães, naufragou algures na costa algarvia, na viagem de regresso à Ásia. Ao longo dos tempos, cresceu a lenda em torno do magnífico tesouro português, perdido em parte incerta, e há décadas que portugueses e espanhóis o procuram. Nem uns nem outros conhecem contudo os detalhes das crónicas malaias que mencionam o assunto. Se o fizessem, o ardor da caça ao tesouro esmoreceria substancialmente. Não importa. Trata-se, no essencial, de uma questão de brio nacional, de orgulho identitário, de redenção da História. Afinal, Guimarães é o berço incontestado da nacionalidade portuguesa e da cultura ibérica. Por cá, o conquistador malaio é visto como um predador que interrompeu uma Idade de Ouro e que inaugurou meio milénio de colonialismo asiático. Do outro lado do mundo, é um herói que construiu um império, hoje desaparecido.

Imaginemos, então, que uma empresa de exploração subaquática informa ter descoberto o local do afundamento do navio, algures junto à costa do País Basco. De imediato, um ministro português declara que são apenas rumores mas, a serem verdadeiros, Portugal não deixará de fazer valer os seus direitos, por ser evidente que o navio transportava o tesouro que fora roubado ao Condado Portucalense.

A notícia corre mundo. Na Malásia, o assunto suscita algum entusiasmo em torno da provável descoberta do navio do grande governador malaio e do respetivo tesouro. A imprensa malaia reproduz, sem crítica nem confirmação, a informação das agências internacionais, a partir de uma notícia de um jornal português. Nem portugueses (que não conhecem as crónicas malaias) nem malaios (que não sabem bem onde fica Portugal) parecem aperceber-se de que o País Basco fica na direção oposta à rota que o famoso navio tomou e dista muitos quilómetros da região do naufrágio. Em todo o caso, o que impera é a excitação em torno dos exageradíssimos cálculos que circulam na internet em torno do riquíssimo tesouro. A imaginação inflamada sempre ganhou vantagem à leitura ponderada de fontes históricas. O tesouro nunca existiu, provavelmente, e o que repousa hoje algures nas águas algarvias revelar-se-á uma enorme deceção no dia em que for finalmente achado.

Tome o leitor as notícias recentes sobre mais um anúncio de uma alegada descoberta da Flor de la Mar, a nau de Afonso de Albuquerque que naufragou junto à costa de Samatra, carregada com o espólio da conquista de Malaca, em 1512. Inverta os papéis entre malaios e portugueses e terá um cenário aproximado do que se passou e do que está realmente em causa nesta história.

(publicado ontem no DN)

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publicado às 00:19


2 comentários

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De Cixi a 13.05.2014 às 00:27

Quando regressam os programas de rádio Quinta Essência?
(texto delicioso, este do DN)
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De Paulo Pinto a 13.05.2014 às 11:28

Foram gravados 10, passaram 7. Faltam, portanto, 3. Pelo que sei, a continuidade foi interrompida devido a um conjunto de entrevistas feitas a propósito do 25 de abril (que estão a passar agora). Não sei quando irão ser emitidos os 3 que restam, mas logo que saiba, informarei. Obrigado.

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