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em jeito de aditamento

por Paulo Pinto, em 26.01.14

Sempre achei que a História tem mais a ver com o presente do que com o passado. A História-ciência, evidentemente. O passado está lá, inacessível e irrepetível, espécie de figura da Alegoria da Caverna de Platão, da qual nós, presos pelas amarras do tempo, apenas vemos sombras. É a partir dessas sombras que tentamos reconstituir, entender e tornar real algo que se perdeu e que já não existe. No livro lancei mão, a certa altura (e a propósito de Camões em Macau) da metáfora do Jurassic Park e dos dinossauros ressuscitados a partir de material genético de rã, que tapa os "buracos" do ADN obtido no mosquito fossilizado (conhecem a história, não preciso repetir aqui). Em História, as nossas preocupações presentes são o "ADN de rã" que nos permite teorizar sobre o passado e tornar coerentes relatos, testemunhos, vestígios documentais.

Também sempre tive a perceção de que o cinema é um meio privilegiado de deteção desse "ADN de rã", não ao nível da fundamentação teórica de autores e escolas historiográficas, mas do senso comum. No livro, faço eco desta preocupação, ora de forma pertinente (sobre filmes "históricos"), ora de modo mais ou menos disparatado, usando o cinema como mero pretexto ou paralelo para melhor levar o leitor a entender onde quero chegar. E que vem isto a propósito? de uma obra que me escapou, que só vi ontem, e que, portanto, não tive oportunidade de utilizar. Com pena, confesso. Trata-se de"Também a Chuva", produção hispano-mexicana sobre uma equipa que prepara a rodagem de um filme, na Bolívia atual, sobre... Colombo. E que se vê confrontada com a agitação social decorrente da "privatização da água", naquele país (a "guerra da água" em Cochabamba). Os olhares paralelos sobre a brutalidade dos conquistadores espanhóis e a situação atual dos "índios" são muito interessantes, irónicos, reflexivos. Nunca há cedência à "consciência pesada pós-colonial espanhola" nem apologia gratuita dos "colonizados". E há umas ironias amargas. A melhor cena é, de longe, a passada no palácio: os espanhóis são recebidos pelo presidente do município e temem que a turbulência nas ruas faça encalhar as filmagens. "Nada temam", é a resposta. Mas, como bons europeus [paternalistas] que são, dão conta das suas preocupações "sociais", que a água irá subir muito, que a população é pobre, e que 2 dólares de rendimento diário médio é uma miséria. Responde o presidente: "2 dólares... é o que vocês pagam aos atores e figurantes daqui, não é?". O discurso não é moralista, nem heróico, nem unívoco. E os laços entre os últimos anos do século XV e a atualidade são colocados de forma inteligente e irónica. Dolorosa, também. Já não há uma elite de barbudos estrangeiros que impõem a sua lei pela força, há um regime policial (ainda que democraticamente eleito, como se ouve, a certa altura, na televisão) que privatiza um bem essencial ao serviço de multinacionais (estrangeiras) e que lança sobre o povo que protesta o anátema dos "agitadores que querem derrubar o governo constitucional".

No final, dei por mim a pensar como seria bom, um dia, algo idêntico ser feito por portugueses (em produção luso-angolana, por exemplo), sobre o seu passado colonial... e a atualidade, evidentemente. Mas, vá lá saber-se porquê, esse dia parece-me ainda longínquo.

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publicado às 22:20

a net é um lugar estranho

por Paulo Pinto, em 19.01.14

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publicado às 20:58

kangaroo surfing

por Paulo Pinto, em 19.01.14

Aproveito, uma vez mais, a onda para informar, a quem interessar, que uns depoimentozinhos que gravei há umas semanas a propósito das temáticas do livro, no Museu do Oriente, passam hoje no magazine "Agora" da RTP-2, aí pelas 21.20.

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publicado às 16:22

Os Salteadores do Canguru Perdido

por Paulo Pinto, em 18.01.14

Aproveito a maré para retomar este blog, que tem andado subnutrido. E a maré é a recente informação, divulgada pela imprensa internacional (por exemplo, aqui, aqui ou aqui), sobre o manuscrito português que alegadamente contém uma figura de um canguru. Conclusão: é uma (presumida) prova da chegada dos portugueses à Austrália antes do "descobrimento" oficial, por um navio holandês em 1606. Como é comum neste tipo de informações, o que não passa de uma curiosidade assume foros de descoberta extraordinária, capaz inclusivamente de "reescrever a história", como os jornais se apressam a reproduzir. Para tal, nada melhor do que pegar nas afirmações da responsável (ou porta-voz) da galeria de arte norte-americana que adquiriu o manuscrito. Ninguém parece interessado em perceber que a instituição tem todo o interesse em publicitar a "descoberta", nem que para isso tenha que alinhavar umas declarações especulativas e sensacionalistas, como afirmar que "Portugal was extremely secretive about her trade routes during this period, explaining why their presence there wasn't widely known" ou que o presumido canguru prova "that the artist of this manuscript had either been in Australia, or even more interestingly, that travellers' reports and drawings of the interesting animals found in this new world were already available in Portugal". Para compor o ramalhete, lá vem o inevitável testemunho de Peter Trickett, autor de uma (mais do que contestada e de duvidosa credibilidade) obra onde defende a chegada dos portugueses ao continente australiano na década de 1520: “It is not surprising at all that an image of a kangaroo would have turned up in Portugal at some point in the latter part of the 16th century, it could be that someone in the Portuguese expedition had this manuscript in their possession". A imprensa portuguesa, claro, vai atrás. O Correio da Manhã, sempre na vanguarda informativa, e sob o curioso título "Ilustração de freira 'descobre' Austrália", faz eco de tudo isto. Curiosamente (ou não), faz interessantes acrescentos da sua lavra, dizendo que "O secretismo e o terramoto de 1755 explicam porque não há registos oficiais nos arquivos portugueses" e que "Portugal tinha, desde 1512, um entreposto comercial em Timor". Começo já aqui: 1. o (alegado) "secretismo" não fazia nenhum sentido nas águas do Sueste Asiático (que fervilhava de navios chineses, malaios, guzerates, japoneses, javaneses), e chegar lá não era segredo nenhum (já franceses o haviam feito na década de 1520, e ingleses na de 1570, e holandeses na de 1590). 2. o terramoto não é para aqui chamado; muita documentação desapareceu, mas duvido que alguma vez tivesse havido "registo oficial" da chegada portuguesa à Austrália. 3. Os portugueses chegaram a Timor em 1515 ou 1516 e não tiveram nenhum "entreposto comercial" por lá durante muito tempo, simplesmente iam carregar sândalo, como chineses e javaneses.

Falar sobre a possível chegada dos portugueses à Austrália no século XVI é assunto muito batido, que não interessa aqui esmiuçar (ou repetir). Apenas é bom relembrar o essencial (não sou eu que o digo, são os autores que estudaram a fundo esta temática e têm sobre ela trabalho produzido e publicado): é possível, talvez provável, que portugueses tenham posto os pés em terras australianas antes dos holandeses. Mas como se tratou de mercadores, de "Fernões Mendes Pintos", de gente que navegava nas redondezas (uma vez mais, a carregar sândalo em Timor) e que viajava geralmente em navios asiáticos (e de asiáticos), por conta própria ou ao serviço do capitão de Malaca, não deixaram registo. A Austrália era uma terra sem interesse, onde não havia cravo, sândalo, noz-moscada, pimenta... nem porcelana chinesa ou algodão indiano. Ficava fora das rotas de comércio asiáticas, nem chineses, nem japoneses, nem malaios se interessavam. Logo, os portugueses também não. Logo, a ter havido tuga ou tugas a desembarcar por lá, não se tratou de uma armada saída de Lisboa, de Goa, de Malaca, com um capitão mandatado pelo rei para "descobrir" a Austrália. Isso nunca existiu. Na viagem de Colombo, por exemplo, sim. Aqui, não. As teses de Trickett (e de McIntyre antes dele, por exemplo) agarram-se a este modelo e a uma alegada viagem de Cristóvão de Mendonça que nunca foi feita. Ponto final. Que há, então? ecos, vestígios ténues, suspeitas; a cartografia da "Escola de Dieppe" é um indício; as obras de Manuel Godinho de Erédia são outro. E pouco mais. Até ver. Fala-se da procura das "ilhas de outro", mas os portugueses procuravam "ilhas de ouro" em muitos sítios (nomeadamente em Samatra), havia lendas malaias idênticas, nada de verdadeiramente novo ou que nos leve à Austrália.

E o canguru? Bom, o canguru pode ser tudo menos um canguru. Trocando por miúdos: ver um canguru numa iluminura de uma obra religiosa das Caldas é um belo exercício de imaginação. Suponhamos um cenário no qual eu (e muitos antes de mim, certamente) franzeria o sobrolho: a mesma imagem numa cópia de um relato de viagens, numa nova versão de uma crónica sobre os portugueses na Ásia, num manuscrito comprovadamente de alguém que tivesse estado na Índia, em Malaca, num escrito de um tratado de geografia sobre a Ásia. Assim, num livro de orações de autoria desconhecida, pertença de uma freira das Caldas, lamento, mas é pouco. Não chega, sequer, para levar a sério. A conservadora da galeria de arte americana bem pode dizer que é um canguru perfeitinho, o Peter Trickett pode afirmar o que quiser, mas o assunto nunca passará (até ver, repito), de uma curiosidade. Aliás, comento: o canguru não era um animal particularmente bizarro para ser reproduzido com tamanho cuidado. Uma girafa, por exemplo, sim. E quem conhece a iconografia da época e vê os resultados dos desenhos feitos a partir de descrições de terceiros (por exemplo, a forma como Filippo Pigafetta desenhou uma zebra, a partir das descrições de Duarte Lopes), sabe que saía debuxado uma criatura bem diferente da verdadeira.

Entretanto, fiz umas declarações à Lusa sobre o assunto, que começam a sair na imprensa. É muito curiosa a forma como as nossas palavras saem "cá pra fora": eis que a SIC Notícias diz que "Historiador diz que portugueses conheciam Austrália antes dos holandeses". Ainda vou ter que fazer uma conferência de imprensa a fazer desmentidos, querem lá ver?

 

adenda: prestar declarações por telefone (ainda que sobre uma mera curiosidade como é este caso) é tramado; gostava de saber onde é que eu alguma vez disse que aquela região (o Sueste Asiático) era "um imenso mar português" e que a possível (ou provável) presença portuguesa na Austrália foi "ad hominem". Faço muitas figuras, eu sei, mas destas, não.

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publicado às 19:08



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